Cairbar
Schutel
Matão,
agosto de 1930
O
Ensino dos Espíritos, coordenados com elevado ponto de vista
e irrefragável lógica por Allan Kardec, abriu às
nossas vistas novos e vastos horizontes de Vida, comprovando a idéia
religiosa de todos os tempos sobre a Imortalidade.
Após o aparecimento do Espiritismo, a sobrevivência
não deve ser mais aceita como um “artigo de fé”
ligado a esta ou àquela concepção espiritualista,
mas sim como um fato demonstrado e demonstrável — uma
verdade inconcussa, independente de comprovações retóricas
e argumentos sagazes e sutis.
Os fatos verificados em todos os países e observados por
homens de todas as classes sociais, comparados com os fenômenos
ocorridos em todos os tempos e relatados na história de todos
os povos, provam perfeitamente que o homem não termina no
túmulo e que se este, como disse Victor Hugo, é o
crepúsculo de uma vida, é também a aurora de
outra.
As demonstrações psico-físicas da sobrevivência,
como se tem observado, aparecem hoje sob todos os aspectos a deixar
claramente elucidado não ser a alma uma coisa vaga, abstrata,
mas sim um ser concreto, possuindo um organismo físico perfeitamente
delimitado, portador de todas as aquisições intelectuais
e morais e dotado dos atributos necessários às demonstrações
da ciência e da moral, principais insígnias da civilização
e do progresso.
De fato, se tudo tem uma causa destinada a produzir um efeito, qual
será a causa produtora desses fenômenos supranormais,
cuja força indomável chegou a criar uma nova ciência
(metafísica), alargando o campo da biologia, da química,
da física, da história natural e até da patologia?
Podem, porventura, as forças cegas da natureza produzir fenômenos
inteligentes, a ponto de criarem ciências e artes e fazerem,
como está acontecendo, verdadeira revolução
na religião e na moral? A desinteligência pode formar
a inteligência? A ignorância, o caos podem engendrar
a sabedoria e a harmonia?
Os aspectos múltiplos das manifestações espíritas,
estendendo cada vez mais a variedade dessas provas e multiplicando-as
todos os dias, não pode deixar de obedecer a um plano inteligente
que dirige essas manifestações, a seu turno, produzidas
por entidades que afirmam a sua identidade e dizem agir de acordo
com as ordens superiores que lhes são ministradas. Nem se
pode conceber por outra forma os fenômenos de transportes,
levitação, materialização, voz direta,
fotografia, demonstrações físicas, objetivas,
oriundas de entidades psíquicas que dizem ter vivido na Terra
com um corpo carnal, revelando-se como parentes, amigos, conhecidos
dos assistentes e apresentando-lhes sua ficha de identidade.
Que outras provas poderemos exigir da sobrevivência, da continuação
da vida dos seres que nos são caros senão essas que
eles mesmos, à nossa revelia, se lembraram de nos oferecer?
Que outros testemunhos podemos lhes pedir senão que falem,
cantem, sorriam como faziam quando conosco estavam, que usem o mesmo
estilo, a mesma voz, o mesmo modo de agir, que, finalmente, se retratem
reproduzindo suas feições e nos apareçam mostrando-se
vivos como eram, com todos os contornos e lineamentos que nos eram
familiares?
As manifestações espíritas, transviadas do
seu fim providencial, desnaturadas pelo espírito da fraude
e do interesse, guerreadas pelo conservantismo sectário e
retrógrado, não têm outro fim que nos trazer
as demonstrações psico-físicas da sobrevivência.
Todos os fenômenos supranormais do psiquismo, sejam os de
natureza anímica, sejam os de natureza espírita propriamente
dita, têm um único escopo: a demonstração
da existência da alma e da sua sobrevivência à
morte do corpo.
Examinemos ligeiramente, para melhor elucidação da
nossa tese, um fato de natureza anímica que demonstre positivamente
a existência do espírito revelando-se com plena independência
do seu corpo carnal.
O Spiritualist de 1875 publica um caso muito característico,
devendo-se a narração ao Dr. Desmond Fitsgeral, engenheiro
distinto, que testemunha o fato.
Diz ele: “Um negro chamado H. E. Lewis possuía mui
grande força magnética, de que fazia exibição
em reuniões públicas. Em Blackheath, mês de
fevereiro de 1856, numa dessas sessões, ele magnetizou uma
rapariga a quem nunca tinha visto. Depois de a ter mergulhado em
sono profundo, ordenou-lhe que fosse até a casa dela, e que
em seguida contasse ao público aquilo que houvesse visto.
Ela declarou então que via a cozinha, e que aí se
achavam duas pessoas ocupadas em trabalhos domésticos.
Lewis mandou que ela tocasse então numa dessas duas pessoas.
A rapariga começou a rir-se, e disse: “Toquei-as, porém
elas estão com muito medo!”
Virando-se para o público, Lewis perguntou se alguém
conhecia a rapariga. Sendo-lhe respondido afirmativamente, propôs
que uma Comissão fosse ao seu domicílio. Diversas
pessoas prontificaram-se a isso, e, quando voltaram, confirmaram
em todos os pontos o que a rapariga havia dito.
A casa estava efetivamente numa balbúrdia e em profunda excitação,
porque uma das pessoas que se achavam na cozinha declarara ter visto
um fantasma e que este tocara-lhe no ombro.
Como se explica esse caso de visão à distância
traduzindo perfeitamente o que ocorria no local bem distante do
qual se achava a paciente sob a ação do magnetizador
Lewis? Se não admitirmos a existência da alma independente
do corpo carnal, qual a solução explicativa desse
fato?
Inúmeros outros fenômenos da mesma natureza enchem
as páginas da história. Haja vista S. Antonio em Pádua
aparecendo em Lisboa onde livrou seu pai do suplício da forca.
O sr. Brackett, investigador céptico e muito prudente, assim
se exprime quando trata de dar o seu testemunho aos fatos espíritas
e anímicos: “Vi centenas de formas materializadas,
e em muitos casos o duplo do médium era tão parecido,
que eu teria jurado ser ele o próprio médium, se não
tivesse visto este duplo desmaterializar-se na minha presença
e, imediatamente depois, verificado que o médium estava adormecido”.
Melhor testemunho da existência da alma revestida do seu corpo
psíquico não pode existir, além do que, como
já vimos, a fotografia constata a veracidade deste princípio.
Quanto à realidade das manifestações espíritas,
esta revista, em todos os seus números registra fatos testemunhados
por homens de valor, de ciência e personalidades insuspeitas
que, forçados pela evidência, não relutam subscrever
os relatos das sessões que assistiram, e durante as quais
verificaram fenômenos verdadeiramente estupendos.
O Dr. Hitchman, autor de obras de medicina, que fazia parte de um
grupo de experimentadores notáveis, após a série
de sessões que assistiu, assim se exprimiu:
— “Efetivamente, acredito ter adquirido a mais científica
certeza que seja possível obter, isto é, que cada
uma dessas formas aparecidas era uma individualidade distinta do
invólucro material do médium, por isso que examinei-as
com o auxílio de diversos instrumentos, constatei nelas a
respiração, a circulação, medi-lhes
o talhe, a circunferência do corpo, tomei o peso, etc.”
Finalmente, reunindo todos os fenômenos que têm sido
observados, quer os psico-físicos, quer os psico-intelectuais,
estudando-se-os sem preconceitos, mas com lógica e bom senso,
não podemos deixar de concluir que a teoria espírita
é a que apresenta maior clareza na resolução
do problema da morte.
Essas demonstrações psico-físicas e psico-intelectuais,
como, por exemplo, a produção de línguas estranhas,
a confecção de quadros, cuja arte está muito
acima da capacidade do executor, de mensagens e até livros
cujo conteúdo é muito superior às faculdades
dos escritores, todas estas manifestações, em seu
conjunto harmonioso e belo, constituem um hino de glória
ao Espiritismo — demonstrações patentes, positivas
da Imortalidade da alma.
Matéria
de "O Clarim" em 07/01/2009. Disponível em:
http://www.oclarim.com.br/?id=7&tp_not=2&cod=720